quinta-feira, 11 de abril de 2013

Caiu a ficha!

- Mô, abre essa garrafa pra mim.
- Sabe de uma coisa, Claudia, eu queria falar isso há muito tempo e vai ter que ser agora.
- O que foi? Não quer abrir a garrafa?
- Não é isso, me dá aqui essa coisa. Pronto, tá aberta. Eu quero falar outra coisa.
- Que foi, Mô?
- É exatamente isso, para de me chamar de Mô. Não gosto, nunca gostei, detesto.
- Mas você nunca me falou isso.
- Nunca falei, mas agora to falando. Por favor, nunca mais me chama assim, tá?
- Mas como vou te chamar... assim, carinhosamente? Quer que chame de amor?
- Não, Mô, morzinho, morzão, moreco, more e amor, tudo é a mesma coisa.
- Mas acho muito formal chamar pelo seu nome próprio, somos casados, nos amamos, né?
- É nos amamos, não precisa chamar pelo meu nome, chama de outra coisa.
- Posso chamar de meu bebê?
- Claudia, eu tenho quase dois metros de altura, cento e trinta quilos, tem certeza que quer me chamar de meu bebê?
- Que tal, meu nego, meu preto?
- Sem preconceito, mas será que combina mesmo com minha origem dinamarquesa?
- Então xuxuzinho?
- Ridículo, nem venha com esse negócio de tchutchuquinho, piguxinho, bunzunzunzinho, é muita frescura pro meu gosto.
- Que tal anjinho?
- Quer que eu morra é? Chama logo de alminha, fantasminha, defuntinho, presuntinho.
- Que é isso, cruz credo! Isso não tem nada a ver. Já sei, vou te chamar de uma coisa gostosa, tipo meu docinho, meu bombom.
- Claudia, eu sou diabético, lembra? Vai tentar o cão.
- Oh, Mô, quer dizer... de que é que eu te chamo mesmo? Senhor Karl Larsen.
- Tá me tirando?
- Mas não é o seu nome? Você não me dá alternativa... posso te chamar de coração?
- Chama de fígado, vesícula, rim, tripa, qualquer coisa.
- Que grosseiro.
- Desculpe, Claudia. Me perdoe.
- Eu só quero te chamar com carinho, entende, mô, ou desculpe. É que é difícil depois que acostuma.
- Por favor, prometa que nunca mais me chama desse jeito.
- Prometo, mas só numa condição.
- Qual?
- Você me diz como quer ser chamado.
- Tá bom, me chama de... Afonso.
- Afonso?
- É,.. eu acho tão carinhoso...
Jansen Viana